Correndo muito e morrendo rápido ou correndo muito e vivendo muito?

Correndo muito e morrendo rápido ou correndo muito e vivendo muito?
Correr ou fazer exercícios além do necessário é uma questão de gosto e prazer pessoal, mas, qual é o risco que esta decisão acarreta?

Artigo recente do Dr. Claudio Gil de Araújo, que transcrevemos abaixo, aborda de forma muito interessante esta questão:

Aqui ou acolá, somos surpreendidos com uma notícia muito ruim no caderno de esportes dos jornais ou nos sites de notícias. Mais um corredor morreu durante uma maratona. Após aquela engolida em seco, tentamos digerir melhor a notícia e fugir daquele pensamento tão negativo - será que poderia ter sido comigo ou com um amigo ou com alguém da minha família?

Na realidade, a história (talvez mal-contada, é verdade!) nos diz que o primeiro maratonista, aquele soldado grego que teria corrido os 42 km, entregou a mensagem e teve uma morte súbita. Vamos reconhecer que não é um começo muito estimulante. Não obstante esse rotundo insucesso em termos de saúde, a maratona sobreviveu, tornou-se um dos principais eventos dos Jogos Olímpicos e, ao longo dos anos, vem se espalhando de forma vertiginosa, extrapolando as grandes e principais cidades e chegando aos mais distantes pontos do planeta. Atualmente, não se precisa procurar muito na web para localizar onde serão as maratonas do próximo final de semana. Completar maratonas, outrora coisa de verdadeiros atletas heróis, é hoje almejado por muitos, mais frequentemente de meia-idade, inclusive por aqueles que possuem pouca ou nenhuma experiência desportiva ou condições clínicas bastante distantes do que se poderia classificar como saudáveis. Inicialmente inserida dentro do lema "esporte é saúde", cada vez mais parece ficar 
sem graça "simplesmente" completar uma maratona. A busca pela superação de desafios é própria e comum nos seres humanos, nada de muito complicado, desde que se reconheça que isso não é feito com o objetivo primário de melhorar a saúde.

Ainda que a ciência não saiba exatamente qual é o limite superior de exercício físico regular para um adulto saudável (e parece que esse limite, se é que existe é bem alto mesmo), parece também claro que indivíduos de meia-idade saudáveis que possuam uma condição aeróbica que façam 150 minutos semanais de exercício vigoroso já devem ter atingido um teto nas possibilidades de benefícios cardiorrespiratórios do exercício físico. Correr mais rápido ou mais íngreme ou por mais tempo, passa, então, a ser uma questão de gosto e prazer pessoal e, como se diz popularmente, gosto não se discute.

Feitas essas colocações de caráter mais geral, podemos retornar ao ponto central: morte de maratonistas. Para uma análise desses eventos trágicos, é importante trabalhar com o conceito de risco. O risco é inerente e sempre presente, portanto nunca poderá ser zero. Ao sair do seu apartamento e pegar um elevador (o meio de transporte mais seguro do mundo!), você está correndo um risco, ainda que fantasticamente baixo, de todos os cabos do elevador se romperem, o elevador desabar e você sofrer um acidente sério, quiçá fatal. Ao sair do prédio, pode cair sobre sua cabeça aquela peça de mármore da varanda do 10º andar ou um carro perder a direção, subir na calçada e lhe atropelar. E por aí vai. 

Na prática do exercício físico, não é diferente, o que pode mudar é a taxa de eventos por exposições, ou seja, baseado em dados estatísticos, qual é a probabilidade de ocorrência de um determinado evento. A literatura médica nos sugere que o risco de um evento fatal durante o exercício físico varia consideravelmente com o tipo do evento, com as condições de realização do exercício e com as características do indivíduo que está se exercitando. Não precisa ser médico para supor que o risco de morte em uma tentativa de atingir o cume do Everest é absurdamente mais alto do que o de uma caminhada pela orla das nossas praias no início da manhã.

No caso das maratonas, a estimativa da magnitude desse risco tem sido bastante beneficiada pelo aumento exponencial do número de maratonistas e atualmente há farta documentação a esse respeito (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22562789 e http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22525769). Em linhas gerais, excluindo situações esdrúxulas e atípicas como aquelas provocadas pelas bombas na maratona de Boston, pode-se estimar que tende a ocorrer uma morte para cada cerca de 100 mil participações ou algo menor do que o número de mortes que tenderiam a acontecer, quando são computadas as mortes provocadas por acidentes de trânsito, em uma manhã de domingo nas ruas e avenidas que foram fechadas para a realização da maratona (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18156224). Esse risco tende a ser ainda menor em mulheres e em meias-maratonas. Esse dado permite duas leituras ou interpretações. 
  • Opção A) tenho de ser muito azarado para ser exatamente aquele "um em cem mil" que será escolhido para morrer na maratona. 
  • Opção B) As maratonas mais famosas, aquelas com cerca de quarenta a cinquenta mil participantes, terão, muito provavelmente, um óbito a cada dois ou três anos.

Há algo que possa ser feito para prevenir ou reduzir as chances de um indivíduo vir a falecer durante uma maratona? Primeiro, vale destacar que os indivíduos que morrem em maratonas apresentam pelo menos uma das duas seguintes características: a) fazem muita coisa errada em relação à hidratação, alimentação, vestimenta e preparação física para a maratona; b) possuem uma doença cardíaca potencialmente séria capaz de induzir uma morte súbita por arritmia e/ou trombose coronária. Indivíduos saudáveis, devidamente preparados e orientados, possuem um risco individual provavelmente inferior a 1/1 milhão de participações, que é similar ao de um idoso assintomático e aparentemente saudável que sai para fazer uma caminhada de 20 ou 30 minutos.

Há grande quantidade de profissionais em todo o país que podem orientar aqueles que querem ingressar ou progredir nas corridas de rua. Em relação à existência de doença cardíaca potencialmente séria, a situação é mais complexa, algumas condições cardíacas podem se manifestar com sintomas ou serem identificadas em alguns exames médicos, incluindo eletrocardiograma de repouso e teste de exercício, porém, nem sempre isso nem sempre acontece. Infelizmente, mesmo em indivíduos assintomáticos e devidamente examinados, é possível minimizar mas não eliminar ou zerar completamente o risco.

Esse é o ponto final? Não! Ainda existe outra ação concreta que deve ser tomada pelas organizações das provas para reduzir um pouco mais ou já raros eventos negativos: existência de equipes médicas, devidamente treinadas e equipadas (melhor ainda devidamente distribuídas ao longo do trajeto, especialmente concentradas no último km), para lidar rapidamente e de forma tecnicamente competente com esse tipo de complicações, inclusive e principalmente, com a temida parada cardiorrespiratória. 

Por parte do participante, há alguma ação que possa ser tomada, além de se preparar adequadamente e obter aconselhamento profissional? Sim, há algo muito importante! Ouça, com a devida atenção, o seu corpo. Se algo lhe parece realmente não estar funcionando bem, diminua o ritmo ou até mesmo aborte a prova e procure atenção médica. E mais um detalhe bem prático. Sabendo que a chance estatística de um raro evento fatal é, todavia, muito maior no finalzinho da prova, reflita bastante sobre as potenciais vantagens e desvantagens de fazer aquele fantástico esforço final para reduzir seu tempo do último km em 15 a 30 segundos, que, em última instância, resultará em uma melhora ínfima de algo como 0,2% no seu tempo total. 

Em síntese, podemos dizer "correndo muito e vivendo muito". Essa é a verdade, especialmente quando existe uma preparação adequada e quando o bom senso prevalece.

Escrito por: Dr. Claudio Gil Araújo - Professor visitante sênior de Cardiologia da UFRJ/CLINIMEX – Clínica de Medicina do Exercício – Rio de Janeiro

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